Relógios Mecânicos
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Artigo | Curiosidades

A Indústria Relojoeira Soviética

por

Flávio Maia, maio de 2026.

No dia 17 de julho de 2021, participei pela primeira vez de uma live. Era com o Leandro do GMT-3, canal que ao longo de anos se tornou o maior espaço em língua portuguesa dedicado à relojoaria, e havia nisso um rito de passagem, após mais de duas décadas escrevendo sobre relojoaria sem mostrar o rosto. A conversa fluía bem, o Leandro é um entrevistador generoso, e a audiência — boa parte dela leitora antiga do Fórum Relógios Mecânicos — trazia perguntas que eu conseguia responder com alguma desenvoltura. Até que um seguidor digitou no chat o que eu poderia dizer a respeito da relojoaria russa.

Saí pela tangente… Falei que a indústria soviética havia surgido em boa parte do saque de Glashütte ao final da Segunda Guerra e que o ferramental da A. Lange & Söhne fora confiscado pelos soviéticos e levado para Moscou, e que ali estava a semente do que viria a ser uma das maiores indústrias relojoeiras do mundo. Era uma resposta que soava bem, tinha conteúdo histórico, e era — como reconheço hoje, depois de ler o assunto com a atenção que merecia — substancialmente errada. Não nos fatos em si, que são verdadeiros, mas na causalidade que eu estava implicitamente construindo. A indústria soviética de relógios não nasceu de Glashütte. Ela já existia há quinze anos quando os soldados chegaram à Saxônia.

Esta é a história que não relatei naquele dia, e que este texto tenta contar agora.

Para entender o que os soviéticos construíram a partir de 1930, é preciso descrever o que não existia antes. A Rússia czarista era, em matéria de relojoaria, um mercado de importação puro. Em 1917, quando a Revolução de Outubro varreu a ordem existente, o país era o quarto maior mercado de exportação da indústria suíça. Breguet tinha clientes entre a nobreza russa. Patek Philippe, Buhré, Moser e Tissot mantinham representantes em São Petersburgo e Moscou. O gênio autodidata M.S. Bronnikow havia produzido em Vjatka relógios de bolso quase inteiramente em madeira — a mola principal, a espiral e o escapamento em aço, todo o resto em madeira trabalhada —, mas isso era curiosidade artesanal, não indústria. A produção doméstica mal alcançava alguns milhares de peças anuais quando o país importava dezenas de milhares da Suíça.

A guerra civil que se seguiu à Revolução destruiu o que havia de mercado. A nova autoridade comunista precisava de relógios — os poucos que comprava custavam ao jovem Estado milhares de rublos por ano — e não havia moeda forte para adquiri-los em quantidade. Em 1922, duas empresas estatais, a Avipribor e a MEMZ, começaram a produzir despertadores e relógios de parede usando componentes importados da Alemanha, com resultados tecnicamente precários e quantitativamente insignificantes. A situação era insustentável para um Estado que havia feito da autossuficiência industrial um artigo de fé.

Em 1927, Stalin consolidava seu poder e o Primeiro Plano Quinquenal começava a tomar forma. Em 21 de dezembro daquele ano, o Conselho do Trabalho e da Defesa aprovou uma resolução intitulada “Sobre Como Organizar a Produção de Relógios na URSS” — um decreto que estabelecia que o país deveria ter uma indústria relojoeira própria, não como luxo, mas como necessidade estratégica, pois relógios eram componentes de aviação, artilharia, instrumentação naval e logística militar. A questão era como construir essa indústria do zero, num país que não tinha tradição manufatureira de precisão, sem que nenhum país europeu estivesse disposto a cooperar.

A solução veio de onde menos se esperava: dos Estados Unidos, e da ruína capitalista.

Wolf Pruss era um dos emissários soviéticos encarregados de resolver o problema da tecnologia relojoeira. Sua proposta inicial — adquirir know-how gradualmente, montando relógios com componentes importados enquanto se formavam quadros técnicos — foi derrotada pelo ímpeto do Plano Quinquenal, que não admitia cronogramas lentos. A URSS queria fábricas, não oficinas de aprendizado. Pruss passou anos na Suíça tentando costurar acordos de transferência de tecnologia. Os suíços, que desde a primeira década do século XX vinham restringindo progressivamente a exportação de componentes avulsos — o chamado chablonnage — e que olhavam para a URSS com a mesma desconfiança que reservavam a qualquer potencial competidor, foram intransigentes: recusaram-se a vender ferramental, tecnologia ou componentes para a produção soviética. As negociações não avançaram.

A Europa fechada, os soviéticos foram à América. E ali encontraram, no colapso do capitalismo americano do final dos anos 1920, exatamente o que precisavam.

A Ansonia Clock Company era uma das grandes manufaturas americanas de relógios de parede e de mesa, fundada em 1850 por Anson Green Phelps em Connecticut. Em seu auge, no início do século XX, a empresa produzia mais de quatrocentos modelos diferentes e exportava para dezenove países. A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial marcou o começo do fim: com o mercado externo perturbado, com os gostos do consumidor mudando, com a incapacidade de manter margem enquanto tentava ganhar volume, a Ansonia foi reduzindo catálogo e acumulando dívidas. Em 1926 vendeu seu armazém no Brooklyn. Em 1927 oferecia apenas quarenta e sete modelos. Em 1929, meses antes do crash de outubro, entrou em receivership — a falência gerenciada do sistema americano. Seu ferramental foi vendido à Amtorg, a empresa de trading que a URSS mantinha em Nova York como seu braço comercial nos Estados Unidos.

A Dueber-Hampden Watch Company tinha uma trajetória paralela e um destino idêntico. John Dueber havia comprado em 1886 a Hampden Watch Company, de Springfield, Massachusetts, e a relocado para Canton, Ohio, onde suas duas empresas chegaram a empregar quase dez por cento da população da cidade. A Hampden produzia movimentos de qualidade reconhecida — entre eles o primeiro movimento americano de 23 rubis em tamanho 16. Em 1923, as duas empresas se fundiram sob o nome Dueber-Hampden. Em 1925, a família Dueber a vendeu para Walter Vretmann, um investidor de histórico financeiro problemático. Em 1927, a empresa entrou em receivership. A Amtorg, agindo mais uma vez como o braço de compras do Estado soviético, adquiriu todo maquinário por trezentos e vinte e cinco mil dólares — aproximadamente sessenta e cinco mil dólares abaixo do valor de avaliação, uma barganha que a crise tornava possível. Um segundo contrato, de cento e vinte e cinco mil dólares, cobriu peças avulsas e movimentos semiacabados. Os dois contratos foram formalizados em 26 de abril de 1929.

Três especialistas soviéticos foram a Canton acompanhar o despacho de todo o conteúdo da fábrica. Em abril de 1930, um carregamento de vinte e oito vagões de máquinas e peças partiu de Canton por ferrovia, cruzando o Atlântico de navio em direção a Moscou

E com as máquinas vieram os homens.

Vinte e três ex-funcionários da Dueber-Hampden — relojoeiros, gravadores, técnicos de diversas especialidades — haviam perdido o emprego com a falência da empresa. Os soviéticos os recontrataram por um ano para instalar os equipamentos e treinar os operários russos. Partiram de Canton em 25 de fevereiro de 1930. O que os aguardava não era, ao contrário do que se poderia supor dado o período da história em que estamos, uma existência de privações. Garratt documenta que os americanos recebiam salários em dólares — uma fortuna em relação ao padrão soviético da época —, dispunham de cozinheiro e mordomo à disposição, e viviam em condições que a esmagadora maioria dos cidadãos soviéticos, por mais dedicados ao ideal revolucionário que fossem, nunca chegaria perto de conhecer. O Estado soviético precisava que esses homens trabalhassem bem e não queria que o desconforto material os perturbasse. Eles foram tratados como o recurso estratégico que eram.

No fim do contrato, nenhum quis ficar. A razão era direta: renovar significava passar a receber em rublos soviéticos. Com os dólares, eram ricos pelo padrão local; com rublos, seriam apenas mais trabalhadores numa economia de racionamento. Voltaram para casa. Quase todos.

Herman London não voltou. A história de London, documentada em apêndice no livro de Garratt, é um desses episódios que revelam o que significa, para um indivíduo, tornar-se útil demais a uma máquina que não reconhece direitos pessoais. London não era cidadão americano: tinha apenas o green card, o documento de residência permanente nos Estados Unidos. Quando chegou o momento de partir, as autoridades soviéticas levantaram a questão de que ele não era tecnicamente americano, e portanto o consulado americano não tinha obrigação de intervir por ele. A legalidade formal da argumentação era impecável. A intenção era transparente. London ficou retido na URSS, preso não por grades mas por documentação — um método de coerção que o século XX soviético desenvolveria até a perfeição.

A fábrica que recebeu os equipamentos americanos não era uma estrutura preexistente adaptada: foi construída do zero. A construção do 1º Estabelecimento Estatal de Relógios começou em fevereiro de 1930 e foi concluída em junho do mesmo ano — quatro meses, num ritmo que só o Plano Quinquenal podia impor. A produção oficial teve início em 1º de outubro de 1930, com os primeiros cinquenta relógios de bolso do Tipo 1, denominados K43 — “K” de karmannyye, relógio de bolso, e 43 pela dimensão em milímetros. Os primeiros movimentos produzidos saíam ainda com a inscrição “Dueber-Hampden, Canton, Ohio, USA” gravada na platina — um detalhe que tornaria esses relógios objetos de coleção de valor considerável décadas mais tarde.

A 2ª Fábrica Estatal, usando o equipamento adquirido da Ansonia, foi inaugurada um mês depois, em novembro de 1930, e direcionada inicialmente à produção de relógios de mesa, parede e despertadores — o segmento de volume alto e precisão menor, onde a curva de aprendizado era mais curta. Em 1936, passou também a fabricar relógios de bolso baseados no calibre K43. Esta fábrica seria, décadas depois, a origem da marca Slava.

Nos primeiros tempos, oitenta e cinco por cento dos movimentos produzidos eram refugo. A curva de aprendizado era longa, mas havia um Estado disposto a absorver seu custo: nos planos quinquenais, o fracasso provisório era aceito desde que a trajetória permanecesse correta. Em 1935, a 1ª Fábrica foi batizada com o nome do dirigente bolchevique assassinado Sergei Kirov — e os relógios produzidos ali passaram a ser popularmente chamados de Kirovskie. De 1935 a 1941, só essa fábrica produziu 2,7 milhões de peças.

O primeiro modelo, o Tipo 1, era baseado no calibre de tamanho 16 da Hampden — um movimento concebido originalmente para relógio de bolso, adaptado de maneira nada elegante para uso de pulso. O segundeiro ficava às 9 horas, a proporção era inadequada para o pulso masculino médio, e a caixa circular tinha dimensões que os técnicos soviéticos denominavam entre si, sem ironia aparente, de caçarola (kastriola), em tradução livre. O relógio ficou em produção até o final dos anos 1950. O movimento K1 derivado sobreviveu em outras aplicações até os anos 1980 — uma longevidade que diz algo sobre a durabilidade do hardware americano que o embasava, e sobre a dificuldade soviética de desenvolver substitutos à altura.

A 3ª Fábrica, fundada em abril de 1935 em Penza, a 625 quilômetros a sudeste de Moscou, teve uma genealogia diferente: foi erguida sobre os restos de uma fábrica de bicicletas, usando equipamento e tecnologia adquiridos da francesa LIP. A história da relação entre a LIP e a URSS é mais complexa do que parece à primeira vista. A manufatura de Besançon — então o principal nome da relojoaria francesa — buscava expandir mercados e acordos industriais internacionais, e em 1936 seu diretor técnico Frédéric Lipmann assinou um acordo pelo qual exportava tecnologia, maquinário, componentes e métodos de produção para os soviéticos.

No centro dessa transferência estava o calibre T18, um movimento de pulso em formato tonneau que era, para sua época, uma referência técnica e industrial. A partir dessa base, a fábrica de Penza desenvolveria os primeiros Zvezda soviéticos e, mais tarde, participaria da produção inicial do Pobeda. Com apoio técnico francês, os soviéticos implantaram em Penza, em 1947, o que apresentavam como uma das primeiras linhas automatizadas de montagem de movimentos mecânicos do mundo — uma conquista alcançada antes da relojoaria suíça adotar soluções semelhantes em escala comparável.

Os relógios baseados no T18 — inicialmente marcados como ZIF, depois Zvezda (estrela) — eram modernos, de proporções adequadas ao pulso, esteticamente distintos dos volumosos Tipo 1. O contraste entre as duas linhas refletia as duas heranças da indústria soviética: o pragmatismo americano de volume e a elegância europeia de forma.

Havia também, em paralelo, a dimensão humana interna que o movimento stakhanovista tornaria dramática. Em agosto de 1935, o mineiro Aleksei Stakhanov extraiu 102 toneladas de carvão em um único turno de seis horas — catorze vezes sua cota —, e o Partido Comunista transformou o feito em doutrina. O stakhanovismo era a proposição de que o trabalhador socialista, movido por consciência de classe e entusiasmo revolucionário, poderia superar qualquer limite técnico pela força da vontade. Aplicado à indústria relojoeira, esse conceito produzia distorções específicas e perigosas: operários que batiam recordes de produção individual eram celebrados como heróis; engenheiros e supervisores que tentavam explicar que relojoaria de precisão não admite a mesma lógica de quantidade que a mineração de carvão corriam o risco de ser classificados como sabotadores deliberados do esforço coletivo. Numa atmosfera em que tal classificação podia resultar em deportação ou morte, e muitos dos envolvidos na construção da indústria relojoeira soviética desapareceram nos expurgos dos anos 1930 —, a pressão para produzir números, mesmo à custa da qualidade, era irresistível.

Wolf Pruss — o mesmo emissário que havia passado anos na Suíça negociando sem sucesso — contribuiu de outra maneira para o projeto da relojoaria soviética ao criar em Moscou um programa de ensino para jovens carentes, uma escola que tentava transmitir de modo sistemático o conhecimento prático que a transferência de maquinário sozinha não podia garantir. Era uma aposta no longo prazo, dentro de um sistema que exigia resultados no prazo do plano quinquenal.

A Segunda Guerra Mundial testou a resiliência da indústria soviética de maneiras que a narrativa oficial preferia não registrar integralmente. Quando a Wehrmacht avançou em direção a Moscou em outubro de 1941, toda a 1ª Fábrica foi evacuada para Zlatoust, nos Urais, a 1.600 quilômetros da capital — parte dos mais de 1.500 estabelecimentos industriais que a URSS transferiu para o interior em fuga, totalizando mais de 1.800 trens. O processo levou até 28 de novembro, quando a evacuação completa foi concluída: 1.260 peças de equipamento transportadas, junto com 296 relojoeiros e técnicos. Durante os anos de guerra, o estabelecimento operou sob a designação Fábrica 845 e orientou sua produção para instrumentação militar — relógios de aviação, cronógrafos para artilharia, peças para embarcações.

A Molnija tem sua origem nesse deslocamento de guerra. Ao fim do conflito, decidiu-se que uma unidade produtiva deveria permanecer na região dos Urais. Em 1945, Stalin assinou o decreto GKO nº 8151с ordenando a criação em Tcheliabinsk de uma nova fábrica dedicada a um calibre de relógio de bolso de precisão. Mais de cem operários e trinta engenheiros foram transferidos de Zlatoust para Tcheliabinsk, junto com equipamentos. Em 17 de novembro de 1947, a Fábrica de Relógios de Tcheliabinsk foi inaugurada — ela que se tornaria, nos anos seguintes, a Fábrica Molnija. O calibre produzido ali, o ChK-6, era derivado do suíço Cortébert 620, e a fábrica especializou-se desde o início em relógios de bolso para uso profissional e militar: relógios para mineiros, ferroviários, marinheiros, pilotos de aviação, etc. A Molnija era, em certo sentido, a herdeira direta da tradição utilitária da 1ª Fábrica — robustez acima de tudo, ornamentação em segundo plano.

Outro desdobramento da evacuação de guerra seria ainda mais duradouro. A fábrica de Tchistopol, estabelecida em 1942 às margens do rio Kama em Tatarstan para abrigar a produção evacuada durante os momentos mais críticos do conflito — e que inicialmente produzia equipamento militar, passando a relógios Kirovskie desde fevereiro de 1943 —, continuou a operar após o retorno parcial da 1ª Fábrica a Moscou. Em 1950, foi integralmente convertida à fabricação de relógios para o Ministério da Defesa. Em 1965, tornou-se o fornecedor oficial de relógios para as Forças Armadas soviéticas. Em 1969, adotou oficialmente o nome que já usava em alguns modelos desde o início da década: Vostok.

É precisamente neste ponto que entra a contribuição alemã — e o erro que cometi naquela live.

Walter Lange era jovem quando a guerra terminou. Havia interrompido seu aprendizado em 1942 para servir no exército, e retornara a Glashütte para encontrar a empresa familiar em ruínas. Na manhã de 8 de maio de 1945 — o último dia da guerra, seu primeiro dia de volta em casa — bombas caíram sobre Glashütte. O principal edifício de produção da A. Lange & Söhne pegou fogo e foi quase inteiramente destruído. As máquinas foram gravemente danificadas. Nos dias seguintes, soldados soviéticos percorreram as ruas da cidade em busca de relógios — Walter Lange descreve em suas memórias como era levado à fábrica com uma pistola apontada ao peito, com a ameaça de “cinco minutos se não tiver relógio”. Não havia mais relógios: a casa havia sido saqueada, as gavetas viradas, o apartamento e as oficinas restantes em completo caos.

O que veio depois foi mais sistemático e mais duradouro do que o saque. Os soviéticos identificaram que, com a fábrica em cinzas e as máquinas destruídas, o que havia de valor em Glashütte era o conhecimento — o projeto industrial codificado nos processos de fabricação. Sob supervisão constante, Walter Lange e outros técnicos foram forçados a documentar em detalhe completo — escrito e ilustrado — o processo de fabricação do Calibre 48 e do cronômetro marítimo da empresa. O trabalho levou meses. Nas demais fábricas de Glashütte que haviam sobrevivido ao bombardeio, as máquinas foram desmontadas e confiscadas como reparações de guerra. Usando esses documentos e, possivelmente, essas máquinas, relógios foram construídos na Rússia. Walter Lange pôde confirmar isso anos depois: os cronômetros russos que encontrou posteriormente tinham características de design imediatamente reconhecíveis como provenientes dos relógios Lange. Não eram relógios russos. Eram cronômetros Lange.

Mas — e este é o ponto que a resposta dada na live ignorava — este episódio aconteceu quinze anos depois do início da industrialização relojoeira soviética. A 1ª Fábrica já havia produzido, entre 1935 e 1941, mais de 2,7 milhões de relógios Tipo 1 sozinha. A URSS já era, na metade dos anos 1950, o segundo maior produtor mundial de relógios, atrás apenas da Suíça e à frente dos Estados Unidos — e em breve seria ultrapassada apenas pelo Japão. O que Glashütte forneceu foi um refinamento na capacidade de cronometria de precisão, uma camada de excelência técnica depositada sobre uma estrutura que já existia, construída sobre ferramental americano e tecnologia francesa. Glashütte foi o acabamento, não a fundação.

No meio dos anos 1950, a indústria relojoeira soviética era um fenômeno industrial sem paralelo na história do setor. Em 1950, a produção de relógios de pulso da URSS atingia 1,5 milhão de peças por ano. Em 1970, esse número havia chegado a 21,7 milhões. Em 1980, a quase 40 milhões incluindo relógios de mesa e parede. Trinta e dois estabelecimentos produziam relógios, ferramentas e componentes.

O modelo de produção era estruturado para volume e não para variedade. Os visitantes ocidentais que tiveram acesso às fábricas de Moscou ao longo dos anos 1960 e 1970 deixaram relatos consistentes: ficavam impressionados com o gigantismo dos equipamentos, com a modernidade das máquinas e com a qualidade funcional dos produtos — movimentos com escape de âncora com o mínimo de quinze rubis, adequados para os fins a que se destinavam —, mas criticavam uniformemente a ausência de atenção ao design e acabamento decorativo. A URSS produzia relógios que mediam o tempo com precisão razoável. Não produzia relógios que alguém desejaria.

Os relógios soviéticos não tinham marcas no sentido moderno do termo: tinham designações de fábrica e designações de modelo, e as fronteiras entre esses conceitos eram fluidas, determinadas mais pela conveniência administrativa do que por qualquer coerência de identidade. A Pobeda — vitória, em russo — era o movimento que a 1ª Fábrica desenvolveu no pós-guerra em parceria com Penza, baseado no calibre R26 da LIP. O Sturmanskie — o relógio do piloto, versão que Yuri Gagarin usou no pulso no voo de 12 de abril de 1961, tornando-se o primeiro relógio de pulso no espaço — era o instrumento de aviação produzido a partir dessa mesma linha de desenvolvimento. O Rodina, de 1956, foi o primeiro automático soviético. Por volta de 1960, apareceram os primeiros relógios com o nome Poljot no mostrador — mas ainda como uma dentre várias designações usadas pela fábrica, ao lado de Antarktida, Kosmos, Mayak, Moskva, Orbita, Pobeda, Sputnik, Strela, Sturmanskie. Em 1964, toda a nomenclatura foi consolidada sob o nome único Poljot — voo, em russo —, num gesto de racionalização que tinha tanto de propaganda espacial quanto de eficiência administrativa.

O que havia de extraordinário nesse sistema era justamente o que o tornaria vulnerável: sua coerência interna era perfeita dentro de suas premissas, e suas premissas eram incompatíveis com qualquer forma de competição externa. A URSS havia criado uma indústria relojoeira autossuficiente num sentido profundo — não apenas em termos de produção, mas em termos de lógica. Quando as fronteiras se abriram, essa lógica deixou de funcionar.

O colapso foi rápido e total. Entre 1991 e 1999, a produção total de relógios, despertadores e relógios de parede na República da Rússia caiu de 61,1 milhões para 6,3 milhões de peças. Para relógios de pulso especificamente, o volume que estava em 4,8 milhões em 2000 havia caído para 1,2 milhão em 2005 e 400 mil em 2008. A abertura das fronteiras liberou sobre o mercado russo décadas de desejo reprimido por produtos estrangeiros. Consumidores que por décadas haviam comprado Kirovskie porque era o que havia passaram, da noite para o dia, a poder escolher entre relógios japoneses de quartzo a preços acessíveis e relógios suíços de entrada para quem tinha renda da nova economia. O relógio mecânico russo não tinha argumento a oferecer que não fosse o hábito e o preço — e o hábito havia sido substituído pelo desejo, enquanto os preços japoneses eram difíceis de bater.

A causalidade que Donzé identifica é precisa: o colapso da indústria doméstica russa foi consequência direta da sua falta de competitividade e da preferência do consumidor russo por produtos estrangeiros, que havia sido suprimida pela economia planificada mas nunca extinta. Não foi apenas que o mercado dos países do antigo bloco comunista desapareceu — desapareceu também o próprio mercado interno. Em 2012, as exportações russas de relógios, no irrisório valor de 5,9 milhões de dólares, iam principalmente para a Suíça (27,1%), Hong Kong (25,4%) e Alemanha (16,9%) — e eram, em sua grande maioria, relógios vintage ou de colecionador, não produção corrente com volume significativo.

A abertura dos mercados revelou que a indústria soviética havia sido protegida não apenas por barreiras alfandegárias, mas por isolamento tecnológico, pela ausência de marketing e pela prioridade histórica dada ao volume sobre qualidade e design. O stakhanovista ideal que o Partido havia glorificado nos anos 1930 era o trabalhador que produzia mais. Nunca houve um análogo soviético do trabalhador que produzia de maneira que tornasse o produto desejável a alguém que tivesse escolha.

O que sobrou não é pouco, mas precisa ser entendido pelo que é.

A Molnija existe ainda em Tcheliabinsk, produzindo relógios de bolso em volumes mínimos — herdeira direta da tradição utilitária que começou nos Urais durante a guerra, especializada desde sempre em instrumentação para uso profissional severo, nunca orientada para o consumidor de moda. É o ramo mais antigo e mais esquecido do que restou.

A Vostok existe em Tchistopol. A fábrica continua produzindo relógios mecânicos — principalmente o Komandirskie, o relógio do comandante introduzido em 1965 como fornecimento oficial ao Ministério da Defesa soviético, e o Amphibia, o mergulhador de 200 metros lançado em 1967, projetado pelos engenheiros-chefes Mikhail Novikov e Vera Belova com uma solução de engenharia contra-intuitiva: a caixa usa a pressão da água para melhorar a vedação em vez de resistir a ela, e o cristal acrílico é empurrado contra a caixa à medida que a profundidade aumenta. Ambos os modelos são produzidos com movimentos fabricados internamente em Tchistopol — um feito genuíno para relógios que custam entre cem e quatrocentos dólares. A Vostok Europe, empresa lituana fundada em 2003 sob o nome Koliz Vostok por Igor Zubovski, é uma entidade distinta: usa movimentos fabricados em Tchistopol mas projeta e monta seus relógios em Vilnius, voltando-se para um mercado ocidental com designs mais contemporâneos e preços substancialmente mais altos. As duas marcas são frequentemente confundidas; não são a mesma empresa.

A Raketa existe — e sua sobrevivência é a mais improvável das três. A fábrica de Petrodvoretz, nos arredores de São Petersburgo, tem uma história que começa em 1721, quando Pedro, o Grande, fundou ali uma lapidária para trabalhar pedras preciosas destinadas à corte czarista. A mesma fábrica que forneceu as pedras para o Mausoléu de Lênin e as estrelas de rubi que coroam as torres do Kremlin começou a produzir relógios em 1949, inicialmente sob a marca Zvezda e depois Pobeda, adotando o nome Raketa — foguete — em 1961 na esteira da corrida espacial. No pico da produção soviética, nos anos 1970, produzia 5 milhões de relógios por ano. Depois de 1991, essa estrutura colossal implodiu: chegou a produzir relógios de souvenir baratos para turistas ocidentais em busca de memorabilia soviética. Em 2009, um grupo de investidores liderado por Jacques von Polier — neto de imigrantes russos que haviam fugido dos bolcheviques — e David Henderson Stewart comprou a fábrica e começou uma reconstrução. Hoje a Raketa é uma das poucas marcas no mundo que produz suas próprias espirais — componente que quase toda outra marca, incluindo a maioria das suíças, compra da Nivarox, subsidiária do Swatch Group.

A Poljot, em algum sentido, não existe mais como entidade coerente. A 1ª Fábrica de Moscou foi privatizada em 1992 e acumulou dificuldades que a tornaram progressivamente irrelevante. Dois sucessores surgiram. A Volmax, fundada em 2000 por ex-funcionários, relançou as marcas Aviator, Buran e Sturmanskie com os movimentos históricos da fábrica, notavelmente o calibre 3133 — uma derivação do Valjoux 7734, o cronógrafo que os soviéticos adaptaram e refinaram ao ponto de torná-lo virtualmente seu. A Maktime, fundada em 1996, adquiriu o maquinário da Poljot e continuou a produção do mesmo 3133, que é hoje o último cronógrafo mecânico produzido em território russo.

E então há o que ninguém esperava: os independentes.

Konstantin Chaykin nasceu em 1975 em São Petersburgo. Não era relojoeiro por formação — estudou engenharia e chegou à relojoaria por uma rota autodidática que poucos conseguiriam percorrer. Em 2003, vendeu sua coleção de relógios para financiar sua oficina e começou a construir o que se tornaria o primeiro relógio com turbilhão fabricado na Rússia. O resultado — um relógio de mesa com turbilhão construído inteiramente com suas próprias mãos — foi publicado na imprensa especializada e Chaykin tornou-se famoso da noite para o dia no círculo de independentes. Desde então, acumulou mais de noventa patentes, criou a série Wristmons — notavelmente o Joker, com seu mostrador antropomórfico que se tornou objeto de desejo de colecionadores globais —, e em 2021 seu Martian Tourbillon alcançou 290.000 francos suíços no leilão Only Watch da Christie’s em Genebra, recorde absoluto para qualquer relógio de pulso fabricado na Rússia. Entre 2015 e 2019, foi o único russo a presidir a Académie Horlogère des Créateurs Indépendants (AHCI).

Anton Suhanov tem uma história que passa por Chaykin: engenheiro mecânico formado pela Universidade Politécnica de São Petersburgo, trabalhava no setor de defesa quando um encontro casual com Chaykin, em 2007, redirecionou sua carreira. Passou anos como diretor técnico da manufatura de Chaykin — aprendendo, segundo ele próprio, cada aspecto da operação de um independente —, e em 2016 ganhou o Concurso de Jovens Talentos fundado pela AHCI com patrocínio de F.P. Journe ao apresentar o Black Clock, o primeiro relógio de mesa com turbilhão de eixo triplo fabricado na Rússia. Em 2018 fundou sua própria marca em São Petersburgo. Em novembro de 2025, venceu o Grand Prix d’Horlogerie de Genève na categoria Revelação Horológica.

Dois relojoeiros russos aceitos pela mais exigente academia de independentes do mundo, um deles vencedor do maior prêmio da indústria internacional. Vindos de uma tradição que havia sido esmagada — primeiro pelo isolamento soviético, que priorizava volume e deixava o refinamento técnico individual sem espaço, depois pelo colapso pós-1991, que destruiu a estrutura mas também o contexto que tornava o ofício possível. Chaykin e Suhanov são, em certo sentido, gerados do nada — ou de um fio muito fino que sobreviveu.

David Lean filmou Dr. Jivago em 1965, com roteiro de Robert Bolt a partir do romance de Pasternak — um romance que a URSS nunca permitiu publicar em casa enquanto seu autor estava vivo. A cena final, com Alec Guinness no papel de Yevgraf, o meio-irmão de Jivago que sobreviveu ao caos pela virtude de servir ao lado vencedor da história, acontece diante de uma hidrelétrica.

Yevgraf acaba de encerrar a longa conversa com Tanya, a jovem que pode ser — ou não — filha de Jivago e Lara, e a observa afastar-se de volta ao trabalho. É então que repara na balalaica que ela carrega. A mãe de Jivago tocava balalaica. Yevgraf pergunta se ela sabe tocar. O namorado responde que sim, que ela é uma artista, e acrescenta que nunca teve aulas. Yevgraf sorri: “Ah! Então é um dom.” A cena corta. O filme termina.

O que Lean parece sugerir não é que a herança de Jivago sobreviveu apesar do sistema, mas que ela sobreviveu de uma forma que o sistema é incapaz de registrar. Não por documentos, instituições ou genealogias comprovadas, mas pelo reaparecimento de algo que ninguém ensinou e que ninguém soube preservar deliberadamente. Tanya não sabe quem foi seu pai. Talvez nem saiba o que aquela balalaica significa. Mas Yevgraf vê nela um traço familiar e, por um instante, acredita reconhecer uma continuidade.

A hidrelétrica ao fundo torna a cena ainda mais poderosa. Ela representa tudo o que o século XX soube construir: escala, produção, planejamento, permanência material. Mas não é ela que emociona Yevgraf. O que o emociona é algo menor e mais frágil: a possibilidade de que uma herança tenha sobrevivido sem arquivos, sem monumentos e sem consciência de si mesma.

A indústria relojoeira soviética foi, em seu apogeu, uma das maiores hidrelétricas industriais que o mundo já viu. Trinta e dois estabelecimentos. Quarenta milhões de peças por ano. A segunda posição mundial. E depois, em menos de uma década após 1991, praticamente nada — as fábricas fechadas, os mercados tomados por produtos que o consumidor russo havia desejado em silêncio durante décadas, o ferramental vendido, os operários dispensados.

O que restou tampouco se explica pelas instituições que sobreviveram. É um Vostok Amphibia ainda montado em Tchistopol por uma fração dos trabalhadores de outrora. É uma Raketa produzindo espirais internamente em Petrodvoretz — algo que pouquíssimas marcas no mundo ainda fazem. É Konstantin Chaykin criando complicações que jamais pertenceram ao imaginário do velho sistema. É Anton Suhanov chegando ao GPHG por caminhos que passam mais pela criatividade individual do que pelo aparato estatal.

Nada disso representa recuperação da antiga indústria soviética. Representa algo mais difícil de definir: a sobrevivência de uma cultura técnica depois do desaparecimento das estruturas que a sustentavam. Como Tanya com sua balalaica, ela reaparece em lugares inesperados, por razões que nem sempre conseguimos explicar completamente. Não como continuidade intacta do passado, mas como um eco suficientemente forte para lembrar que o passado existiu.

Fontes

  • The Birth of Soviet Watchmaking: Continuing the Hampden Story, de Alan F. Garratt
  • The Business of Time: A global history of the watch industry, de Pierre-Yves Donzé
  • The World of Watches: History, Technology, Industry, de Lucien f. Trueb.
  • The Revival of Time, Memoirs, por Walter Lange.