As Frustrações de um Horologista Amador
por
Flávio Maia, Janeiro de 2026.
Desde o ano 2000, quando criei o blog Relógios Mecânicos, e 2001, quando dei vida ao fórum de mesmo nome, dedico-me a escrever artigos técnicos sobre relojoaria para o público brasileiro. Trata-se de um trabalho pioneiro e inteiramente amador, movido exclusivamente pela paixão. Minha fonte primária de conhecimento, por mais incrível que possa parecer em tempos de internet, sempre foram os livros. Durante essas quase três décadas, não apenas escrevi textos históricos que se tornaram referência no assunto, mas também publico diariamente posts na minha conta do Instagram. E ao longo desse caminho, muitas vezes tive ideias que me pareciam extraordinárias para longos artigos, mas que simplesmente não consegui levar adiante em virtude de uma soma de fatores que vão desde ser ignorado completamente até ter que brigar juridicamente pelas informações que buscava.
Este texto é uma tentativa de documentar essas frustrações, de explicar meus métodos de pesquisa aos leitores e, quem sabe, deixar em aberto discussões que, um dia, possam ser retomadas por mim ou por outros pesquisadores. Nada do que está aqui deve se perder. Cada correspondência não respondida, cada recurso administrativo indeferido, cada mensagem deixada no vácuo das redes sociais é um fragmento da história não contada da pesquisa horológica amadora no Brasil.
O relógio de JK
No ano de 2005, visitei o Memorial JK em Brasília e notei, logo na entrada, exposto em vitrine, o relógio de uso diário de Juscelino Kubitschek: um Rolex Oyster Perpetual em ouro. Curioso e já pensando em um texto a ser escrito, enviei um e-mail para o Memorial no dia 6 de abril de 2005. Naquela mensagem, apresentei-me e expliquei minha paixão por relógios mecânicos, mencionando o site que havia criado sobre o assunto. Perguntei se possuíam maiores informações sobre o relógio, se era efetivamente o usado por JK, qual seu número de série, se havia fotos de JK com tal relógio e se permitiam fotografar o interior do Memorial.
A resposta veio da senhora Cirlene Ramos no dia seguinte: “Prezado Senhor Flávio, Conforme solicitado, envio algumas informações encontradas sobre o relógio de JK. – Relógio Rolez Oysler Perpetual – Datejust Superlative Chronometer Officially Certificad (sic). Dimensões: 3,5 (diâmetro). – Doado pela família Kubitscheck (sic) – Este relógio estava com JK quando do acidente que o vitimou. – Foi roubado no local do acidente – resgatado em Alagoinhas e devolvido a família. – Era o relógio que JK usava frequentemente. – Existe foto em que JK aparece usando o relógio, inclusive fotos em exposição no museu.”
Imediatamente respondi, corrigindo os erros de grafia. O nome correto do relógio era ” Rolex Oyster Perpetual Datejust Superlative Chronometer Oficially Certified, e não “Rolez Oysler Perpetual” como constava em seus arquivos. Cirlene autorizou minha visita para tirar fotos, mas informou que não tinham o número de série. Respondi que iria ao Memorial em cerca de um mês, pois ainda não conseguia tirar boas fotos em macro com a câmera digital.
Confesso que acabei não indo. A quantidade restrita de informações não me pareceu adequada para desenvolver um texto com muita qualidade. E olha que havia algo extremamente interessante: o fato de o relógio estar sendo usado por JK no dia do acidente, ter sido furtado do local e depois reaparecido em Alagoinhas. Como isso aconteceu? Quem o recuperou? Por quais mãos passou? Essas perguntas ficaram sem resposta, e acabei esquecendo o assunto.

Porém, em 2025, a curiosidade voltou. Tentei retomar o contato com o Memorial JK através das redes sociais, enviando mensagens diretas pelo Instagram. Fui ignorado. Depois tentei por e-mail. Novamente, silêncio absoluto. Compreendendo que o meio informal não estava funcionando, decidi formalizar através da Lei de Acesso à Informação.
Em 25 de junho de 2025, protocolei o pedido LAI-011658/2025 junto à Secretaria de Cultura do DF. Solicitei o número de série do relógio, informação sobre se foi presente ou aquisição pessoal, detalhes sobre como se descobriu o furto, as circunstâncias de sua recuperação, cópias de fichas técnicas, registros de inventário, termos de doação, laudos, relatórios e fotos em alta resolução.
A resposta veio em 14 de julho: o Memorial JK é gerido por fundação de natureza privada, e a Secretaria não teria competência para prestar informações sobre sua administração, acervo ou funcionamento. Interpus três recursos sucessivos, até chegar à Controladoria-Geral do Distrito Federal. Em todos, argumentei que o Memorial está em espaço público, abriga bens de valor histórico, mantém parcerias com o poder público e, portanto, deve observar a Lei de Acesso à Informação. A decisão final, em 26 de agosto de 2025: indeferimento.
Acionei então o Ministério Público do Distrito Federal. Algum tempo depois, provavelmente instados pelo MPDFT, o Memorial finalmente entrou em contato. Em 19 de dezembro de 2025, informaram apenas o número de série: 6605-460172, confirmando tratar-se de um Datejust fabricado em 1959. Perguntei sobre as demais informações, especialmente sobre a recuperação do relógio após o furto. A resposta foi frustrante: “Não localizamos em nosso acervo documentos que comprovem como o artefato foi recuperado.”
Um balde de água fria. Não apenas não confirmaram as informações anteriormente fornecidas pela própria curadoria em 2005, como também não puderam esclarecer nada sobre a história mais interessante do relógio. O que mais me impressionou foi a falta de preocupação da curadoria de um museu tão importante em investigar seu próprio acervo. Imaginem que história fantástica renderia a pesquisa sobre os meandros deste relógio! Vinte anos separam meu primeiro contato da última tentativa. Vinte anos durante os quais informações que um dia existiram simplesmente se perderam ou deixaram de ser consideradas relevantes.
O relógio do Descobrimento
A próxima frustração veio ao assistir uma entrevista em podcast com Bernhard Lederer, um dos mais respeitados master watchmakers da atualidade. Lederer contou algo totalmente inusitado: por ocasião das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, a Rede Globo desejava criar um relógio monumental em contagem regressiva. Hans Donner, o famoso designer que trabalhou para a Globo, entrou em contato com Lederer para construir o Relógio do Descobrimento.

Lederer veio ao Brasil para o que deveria ser um trabalho rápido. Mas depois de construído, a Globo gostou tanto do resultado que o contratou para replicá-lo em cada capital do Brasil! Um trabalho gigantesco que o fez morar no Brasil durante um ano inteiro. Tecnicamente, a construção era difícil porque os relógios funcionariam na praia e o vento podia atrapalhar o movimento dos ponteiros.
Mas Lederer foi além: a parceria com Donner evoluiu para uma linha de relógios mecânicos com demonstração do horário através de círculos concêntricos. Esses designs lembravam muito os relógios da BLU (Bernhard Lederer Universe), sua empresa posterior, e fiquei em dúvida sobre quem havia inspirado quem.

Tentei contato com Hans Donner através de seu site e redes sociais. Fui totalmente ignorado. Tentei contato com a Rede Globo e a Fundação Roberto Marinho. Novamente, ignorado. Não desisti. Entrei em contato com o próprio Lederer em 2 de maio de 2025, conforme tradução livre: “Caro Sr. Lederer, sou um horologista radicado no Brasil e acompanho seu trabalho há muitos anos — desde a época da BLU, que me marcou profundamente pela originalidade poética daquelas criações. Recentemente, ouvi uma entrevista na qual o senhor falou sobre seu período no Brasil, quando Hans Donner o convidou para projetar um relógio monumental…”
Para minha surpresa, ele respondeu no mesmo dia: “Olá, Flavio, muito obrigado por entrar em contato comigo. Será um grande prazer conversarmos sobre isso e sobre muitas outras coisas.”
Respondi entusiasmado, e ele disse: “Estarei de volta a um computador na terça-feira. Então poderei cuidar disso. Agradeço pela sua paciência até lá.”
Em 9 de maio, enviei mensagem de acompanhamento: “Caro Sr. Lederer, espero que esteja bem! Gostaria apenas de fazer um breve e gentil acompanhamento — sei que o senhor é muito ocupado, mas continuo bastante entusiasmado e aguardando com expectativa suas considerações…”
Silêncio. Marquei-o várias vezes em posts sobre o assunto no Instagram, sempre sem respostas, até que desisti. Lederer, que havia se mostrado tão receptivo inicialmente, simplesmente esqueceu. Fiquei sem minha história sobre os Relógios do Descobrimento, sem conhecer os detalhes técnicos desses monumentos que um dia marcaram as praias brasileiras.
A tradução que ofendeu
Há anos li uma entrevista rara com Gérald Genta conduzida por Fulano de Tal (omiti seu nome propositalmente, entenderão o motivo adiante), publicada originalmente em grego em 2009 e depois disponibilizada em inglês em 2012. Como estudioso, via muita gente falando bobagens sobre Genta, sobretudo agora que seu nome voltou à moda por conta do Royal Oak e do Nautilus. Com a melhor das intenções, redigi um texto sobre minha admiração por seus designs, minha experiência pessoal com um Omega Constellation C que ele criara e que possuo um exemplar, e traduzi literalmente a entrevista. Citei as fontes, linkei tudo, segui todos os protocolos. Ao divulgar no Instagram, marquei Fulano de Tal.

A resposta veio em mensagem furiosa: “Minha entrevista histórica aprofundada, exclusiva e única no mundo com Gérald Genta foi publicada pela primeira vez na minha revista WOW em 2009. Discordo totalmente da republicação do meu trabalho em qualquer site ou plataforma no mundo, em qualquer idioma. Portanto, solicito que minha entrevista seja removida imediatamente.”
Respondi: “Caro Fulano de Tal, trabalho como promotor de justiça criminal no Brasil e nunca — nem mesmo em sonho — quis capitalizar o trabalho que faço em relojoaria. Escrevo sobre o tema desde 1998 sem jamais ter ganho um único centavo com isso, unicamente por amor. Os brasileiros, ao contrário dos europeus, não dominam bem línguas estrangeiras. Somos, infelizmente, uma nação de analfabetos funcionais. Essa é a verdade. E foi com a melhor das intenções que eu simplesmente quis traduzir sua entrevista, para que os brasileiros pudessem ter acesso a esse pedaço da história…”
Ele foi inflexível: “Sou amigo próximo de dezenas de editores no mundo inteiro, com milhões de visitantes, e eles nunca sequer me perguntaram se poderiam publicar uma de minhas entrevistas. Limitam-se a fazer uma breve descrição da entrevista e a colocar o link abaixo. Por favor, proceda da mesma forma.”
Deletei tudo. Os brasileiros não tiveram acesso ao precioso conteúdo da entrevista. Hoje, acredito que ninguém mais no mundo tem acesso, pois o site dele não está mais disponível.
O relógio Martinot-Boulle
Comecei a assistir a um documentário suíço sobre a restauração do relógio Martinot-Boulle quebrado durante a invasão do Congresso em 8 de janeiro de 2023. Ao somar o que vi aos meus conhecimentos, percebi que a história oficial não fazia sentido. Afirmava-se tratar de presente de Luís XIV à Coroa Portuguesa, cuja restauração teria sido feita pela Audemars Piguet. Entrei em contato com Rogério Carvalho, Diretor-Curador dos Palácios Presidenciais, via Instagram em 21 de abril de 2025, enviando questionamentos técnicos e históricos. Embora tenha lido a mensagem, não respondeu.

Formalizei, então, um pedido com base na lei de acesso à informação em 28 de abril (NUP 00137.003753/2025-98). Solicitei: origem histórica do relógio, histórico desde o século XVIII, registros de restaurações anteriores, esclarecimentos sobre a participação da Audemars Piguet, localização atual e visitação pública, e procedimentos de manutenção futura.
A resposta de 29 de maio foi reveladora: não dispunham de informações sobre o histórico desde o século XVIII, não tinham registros de restaurações anteriores a 2023, a restauração se deu por Acordo de Cooperação Técnica com a Suíça, a Audemars Piguet foi responsável pela recuperação sem custos ao erário, e o relógio está no Gabinete do Presidente.
Interpus recurso argumentando omissões: o Acordo não foi anexado integralmente; a Audemars Piguet não atua em restauração de relógios históricos do século XVII/XVIII com marchetaria Boulle — a execução foi por ateliê em Sainte-Croix; reportagens mencionavam restaurações anteriores; laudos técnicos não foram fornecidos.
A resposta ao primeiro recurso (9 de junho) trouxe apenas o extrato do Acordo publicado no DOU, fotografias já públicas, e informações sobre visitação. Foi conhecida apenas parcialmente, alegando “inovação recursal”. Interpus segundo recurso (12 de junho) ressaltando ausência de resposta efetiva. A resposta (17 de junho) foi “Não conhecimento”.
Recorri à CGU em 18 de junho, argumentando que o extrato não continha cláusulas, obrigações, identificação dos executores técnicos ou escopo da intervenção — elementos essenciais para verificar conformidade com boas práticas de conservação patrimonial. Em 27 de junho, a CGU informou que o recurso estava em análise. Em 22 de julho, prorrogaram o prazo. Em 20 de agosto, suspenderam por mais 30 dias para “aprofundamento de estudos relacionados ao tema”. Até a data deste texto, o recurso permanece sem resposta definitiva.
Mesmo com as informações incompletas, redigi o artigo sobre o relógio Martinot-Boulle e o publiquei, pois a história era importante demais para deixar passar. Tenho quase certeza de que a CGU e a Presidência não conseguirão responder adequadamente o que perguntei — não porque não queiram, mas porque as informações simplesmente podem não existir ou estar dispersas sem documentação adequada.
Amyr Klink e o Rolex
Certo dia marcaram-me num trecho de entrevista com Amyr Klink na qual ele dizia que a Rolex havia se aproximado dele para patrocínio. Ele teria apenas perguntado ao representante: se vou usar esse relógio em navegação — referindo-se à época em que atravessou o Atlântico a remo —, quantos segundos ele faz por dia? Após o representante dizer que o relógio atrasava 25 segundos por mês, Klink teria dito que se tratava de um “lixo” e que qualquer G-Shock faria melhor para navegação.

Respondi ao post dizendo que compreendia o que ele estava falando, que um G-Shock em termos de precisão é melhor que um Rolex, mas também disse que ele havia falado algo claramente provocativo. Falei isso com convicção porque já havia lido seu relato da travessia, o livro “100 Dias entre o Céu e o Mar”, no qual ele havia usado apenas dois sextantes, sendo um deles de plástico, e cronômetros que, embora não tenha dito quais eram, ficava claro serem de marinha. Ou seja, ao mesmo tempo que Klink criticava a Rolex, ele próprio havia usado os instrumentos mais primitivos para fazer a travessia, sem qualquer problema.
Como horologista, afirmei que qualquer navegador faria a travessia com sucesso usando um Rolex, pois o mais importante na navegação sequer era a marcha diária média de um relógio, mas sua regularidade. E um Rolex bem ajustado é regular para caramba! Fui massacrado nos comentários: quem é você? Ele, um navegador experiente, você, um metido a besta que fala sobre relógios!
Mordido no ego, pensei: vou entrar em contato com ele! Enviei-lhe perguntas via Instagram: que tipo de cronômetro utilizou na travessia? Eram mecânicos tradicionais? De qual marca? Quem os forneceu? Qual era o erro médio diário? Com que frequência os reajustava por rádio? Tirava visadas horárias apenas pelo Sol ou também pelas estrelas? Dominava métodos de navegação totalmente estelar, sem referências temporais externas? Conhecia os Rolex Oysterquartz, que superavam os cronômetros mecânicos em precisão?
Ele não respondeu. Enviei as mesmas perguntas para sua esposa e filha no Instagram. Nada. Já havia desistido quando comentei a história com um conhecido que disse: almoço com o Almir uma vez por mês! Conversou com ele e me passou seu telefone pessoal. Liguei e não fui atendido. No dia seguinte ele me ligou, mas por azar meu telefone estava longe e não ouvi. Liguei novamente, sem ser atendido. Enviei então um longo WhatsApp com todas as perguntas, dizendo que havia relido “100 Dias entre o Céu e o Mar” para me preparar para a conversa. Não fui respondido.
Lá pelas tantas, já redigindo outros textos, desinteressei-me por este, muito embora, quem sabe, algum dia eu tente retomar o contato.
O que fica
Como devem ter percebido, às vezes não é fácil redigir textos sobre horologia. As pessoas acham que tudo surge do zero e não fazem nem ideia do trabalho que dá para levar conhecimento ao outro. Estas são apenas algumas das histórias que não contei, dos textos que não escrevi, das pesquisas que não concluí. Cada uma representa horas de trabalho, dezenas de mensagens, recursos administrativos detalhados, leituras cuidadosas de documentos e, principalmente, uma frustração renovada com o silêncio.
Mas documentar essas frustrações é também uma forma de resistência. É dizer que tentei, que busquei, que não desisti facilmente. E é deixar um registro para que, talvez, futuros pesquisadores possam retomar essas questões com mais sorte ou melhores ferramentas. A história da horologia no Brasil ainda está sendo escrita, e cada tentativa — mesmo as fracassadas — faz parte dessa construção.
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