Um relógio resistente a 30 metros resiste a 30 metros
por
Flávio Maia, Setembro de 2026.
No dia 24 de julho deste ano, a Technos anunciou o relançamento do Skydiver Automático 500M, e eu disse nos stories que aquele seria o maior lançamento do ano na relojoaria nacional. Continuo achando que a intenção era essa. O modelo resgata um dos maiores patrimônios da marca — um relógio nascido suíço nos anos 1960, no auge dos mergulhadores profissionais, depois produzido no Japão, e que só chegaria ao mercado brasileiro em 1986 — e o traz de volta numa edição numerada de mil unidades, setecentas com mostrador preto e trezentas com mostrador branco. Caixa de 37,5 milímetros, safira em domo com antirreflexo, aro unidirecional em alumínio, coroa e fundo rosqueados com a âncora do original gravada, movimento suíço Sellita SW200-1 e resistência à água de 500 metros. Cinco mil e quinhentos reais no lançamento, algo em torno de mil e cem dólares na cotação de hoje. A marca fala em um projeto de pesquisa histórica iniciado em 2024, com consulta a colecionadores brasileiros e estrangeiros, e o resultado, esteticamente, é muito bom. Há vinte e sete anos eu escrevo sobre relojoaria mecânica, e quando comecei, em 1999, jamais teria imaginado que um dia uma marca brasileira faria uma reedição fiel de um relógio de mergulho dos anos 1960 com movimento suíço e a esgotaria em poucos dias nos canais de venda direta.

Houve alguns erros na campanha. Em determinado momento o material de divulgação trazia a fotografia de um movimento que não era o Sellita, mas um Miyota da série 8000 — erro que comuniquei à marca e que foi corrigido algum tempo depois, não sei se por minha influência ou por outra. Houve também uma confusão de datas que ninguém se deu ao trabalho de esclarecer: parte da imprensa noticiou os quarenta anos da linha, outra parte falou do modelo criado na década de 1960, e as duas coisas são verdadeiras — os quarenta anos são de Brasil, contados de 1986, e a Technos havia lançado em abril uma coleção comemorativa desse aniversário, coisa distinta desta reedição de julho, que remete ao original suíço. O leitor comum, evidentemente, saiu de tudo isso sem entender nada.
Depois vieram os relógios às mãos das pessoas, e comecei a receber reclamações privadas na minha conta em rede social. Falta de polimento entre as garras, movimento mal ajustado, o pip do aro — a bolinha luminosa que marca as doze horas — soltando-se. Coisas de acabamento, que num relógio de cinco mil e quinhentos reais incomodam, mas não são o assunto deste texto. Até que uma pessoa me enviou a fotografia do seu exemplar, comprado havia menos de um mês, com condensação sob o cristal em uso absolutamente normal. Levado a um relojoeiro, constatou-se o motivo: a junta da tampa do fundo não havia sido instalada.

Um relógio anunciado como resistente a quinhentos metros, o equivalente a uma coluna de água mais alta que um edifício de cento e sessenta andares, embaçou por dentro porque faltava um anel de borracha de alguns centavos. O relojoeiro e autor Adriano Passareli, aliás, testou em bancada, com aparelho de pressão, um exemplar do mesmo Skydiver, que passou tranquilamente a 400 metros: a diferença entre os dois relógios não estava no projeto, estava na junta que faltava num deles. E foi olhando aquela fotografia que me ocorreu que ali estava, cristalizada numa única imagem, a resposta para a pergunta que eu vejo repetida há vinte e sete anos e que nunca foi respondida direito: afinal, se meu relógio é resistente a trinta metros, eu posso nadar com ele? Ou, como sustentam os manuais japoneses, boa parte dos relojoeiros e a quase totalidade dos influenciadores, um relógio precisa ter no mínimo cinquenta metros para entrar numa piscina, e cem para nadar de verdade?
A resposta, adianto, é sim, você pode nadar. E a pesquisa que fiz para chegar a essa afirmação com segurança me levou para um lugar que eu não esperava — estudos de hidrodinâmica em nadadores de elite, com sensores de pressão colados nas mãos e câmeras de captura de movimento no fundo da piscina. Mas antes de chegar lá, convém entender de onde veio essa história toda.
O relógio resistente à água não foi inventado; foi evoluindo. E ele não nasceu para nadar, nasceu para não parar. Poeira e umidade sempre foram os grandes inimigos do relógio mecânico: o pó, unido ao óleo lubrificante, transforma-se numa pasta abrasiva que danifica mancais e pivôs, e a umidade enferruja o aço. Vedar a caixa era, em primeiro lugar, uma questão de manutenção, não de esporte. O caso mais antigo de que se tem notícia de um relógio verdadeiramente “à prova d’água” é de 1851, exibido por W. Pettit & Co. na Grande Exposição de Londres, suspenso dentro de um globo de vidro cheio de água, rodeado de peixes dourados e prateados — a mesma encenação que Hans Wilsdorf reproduziria nas vitrines das revendas setenta e seis anos depois, provavelmente sem saber que estava repetindo alguém.
Daí em diante a história é uma sucessão de patentes que quase ninguém conhece. Na década de 1870 surgem os relógios de explorador, ou de viajante, com fundo e aro rosqueados sobre juntas de couro e uma tampa rosqueada cobrindo a coroa — a Royal Geographical Society adquiriu ou recebeu cerca de quarenta deles entre 1878 e 1929, e um exemplar da S. Smith & Son acompanhou Robert Falcon Scott na expedição Discovery e na fatídica Terra Nova. Em 1881, o americano Ezra C. Fitch patenteia a primeira coroa verdadeiramente rosqueada, na qual a própria coroa faz as vezes da tampa e se atarraxa sobre o pendente. Poucos meses depois, no mesmo ano, outro americano, Almon Twing, patenteia uma coroa que pode ser rosqueada e desrosqueada sem dar corda no relógio ao mesmo tempo, resolvendo um travamento que a de Fitch podia sofrer com a mola cheia. Em 1883 a Alcide Droz & Fils registra o l’Imperméable, com as roscas protegidas dentro do pendente em vez de expostas. Em 1891, François Borgel patenteia em Genebra a sua caixa rosqueada de uma peça só, sem fundo destacável.

E é aqui que a história começa a ficar interessante para o nosso assunto, porque a caixa Borgel não tinha uma única junta de vedação. Nenhuma. Eram três encontros metal contra metal — aro sobre caixa, coroa contra o tubo, e a chapa de mola que fechava o furo do pino de ajuste. David Boettcher, que mantém o vintagewatchstraps.com e é provavelmente o mais rigoroso pesquisador dessa história, pegou um exemplar seu já bastante castigado, com o aro arranhado por alguém que tentara retirar o movimento, e roscas, coroa e pino já desgastados pelo uso, e o submergiu numa pia. Não entrou uma gota. E um colecionador lhe escreveu em 2016 contando que esquecera um Longines com caixa Borgel no bolso da calça e a lavara na máquina: ao abrir o relógio, o interior estava seco.
Os primeiros relógios de pulso realmente estanques aparecem na Primeira Guerra. O Fortis Aquatic tem prioridade de 27 de agosto de 1915, patente suíça CH 71715, com fundo rosqueado, sem aro frontal, e juntas para o vidro e para a haste — a Harrods, que o vendia com exclusividade em Londres, anunciava em 1917 que testava cada exemplar em água por catorze dias antes de pô-lo à venda. E há o Tavannes Submarine, encomendado por dois comandantes de submarino da Marinha Real britânica, entregue por volta de outubro de 1915 e vendido pela Brook & Son de Edimburgo. O Horological Journal de dezembro de 1917 registrou as quatro condições que os comandantes exigiram: que fosse estanque, porque mesmo à superfície o convés de um submarino vive molhado; que fosse antimagnético, porque submerso o barco funciona a eletricidade; que o balanço fosse de material que não se dilatasse com a temperatura; e que o mostrador fosse legível a qualquer hora, o que resolveram com contraste da cor preta com números luminosos. O Submarine vedava a haste com uma junta comprimida por uma porca contra uma seção polida do eixo, e tinha sobre o Oyster uma vantagem prática que se perdeu na história: permanecia estanque enquanto se dava corda e se acertavam os ponteiros, e não havia rosca no tubo para desgastar.
O Rolex Oyster, patenteado em 1926 e lançado em 1927, não foi o primeiro relógio de pulso resistente à água, e a Rolex, como de hábito, conta a história de um jeito que sugere o contrário. O que a Rolex fez, e isso é indiscutível, foi transformar uma solução técnica em objeto de desejo popular, com o golpe de gênio publicitário que foi patrocinar Mercedes Gleitze na travessia do Canal da Mancha em 1927. E há um mérito técnico real que costuma passar despercebido: a caixa Oyster obrigava a desatarraxar e atarraxar a coroa todos os dias para dar corda, o que gastava a rosca do tubo, e foi justamente esse defeito que empurrou a Rolex para o movimento automático. A estanqueidade do Oyster só se tornou confiável no dia em que o relógio deixou de precisar que alguém mexesse na coroa.
Quanto ao primeiro relógio efetivamente de mergulho, a história é outra. O mergulho recreativo só nasce com o escafandro autônomo do comandante Yves Le Prieur, em 1925, e o primeiro relógio qualificado para essa atividade é o Omega Marine, de 1932, com sua caixa dupla retangular em que uma parte se encaixava dentro da outra. O Rolex Submariner, a título de exemplo, só aparece em 1953.

Observe que é possível concluir algo prático depois de todo este contexto histórico. Se caixas de 1891 sem nenhuma junta de vedação, e caixas de 1915 vedadas com couro e fio de algodão encerado, atravessavam rios africanos, máquinas de lavar e catorze dias de imersão contínua, alguma coisa está muito errada na afirmação de que um relógio de 2026, com elastômeros sintéticos desenvolvidos para a indústria aeroespacial, não aguenta uma piscina.
Na fábrica, o relógio é testado. Os métodos são dois: o teste seco, por ar comprimido, em que se mede a variação de pressão para detectar vazamento, e o úmido, por imersão em recipiente pressurizado. O teste seco é rápido e barato e por isso domina a linha de produção; o úmido é o que a norma prescreve. E há um terceiro, decisivo, que nem todas as marcas fazem: o teste de condensação. Aquece-se o relógio sobre uma placa entre 40 e 45 °C até que o cristal atinja a temperatura da placa, deposita-se sobre o vidro uma gota de água fria, entre 18 e 25 °C, ou um pano úmido, espera-se cerca de um minuto, enxuga-se, e observa-se se há qualquer sinal de embaçamento na face interna do cristal. Qualquer sinal reprova a peça. Um relógio cuja junta do fundo não foi instalada — para voltar à fotografia que me trouxe até aqui — reprovaria neste teste em um minuto de bancada, com zero bar de pressão aplicada.
Chegamos, então, ao ponto. A afirmação central que sustenta toda a mitologia é esta, e você a encontrará repetida em manuais, em sites de revenda, em vídeos e em artigos de sites especializados: os ensaios de fábrica são estáticos, feitos em água parada, e a vida real é dinâmica; o movimento do braço na natação gera pressão adicional tão grande que ultrapassa a resistência declarada; logo, um relógio de trinta ou cinquenta metros não pode ir à piscina.
A premissa não é inteiramente falsa. Existe, sim, acréscimo de pressão pelo movimento. O que é falso é a magnitude.
A pressão dinâmica de um fluido é dada por uma fórmula: metade da densidade multiplicada pelo quadrado da velocidade. Com a água doce a mil quilos por metro cúbico, para acrescentar uma única atmosfera — dez metros, ou 101.325 pascals, a unidade de pressão do Sistema Internacional — seria preciso mover o relógio a mais de catorze metros por segundo (101.325 = ½ × 1.000 × v², ou seja, 101.325 = 500 × v²; dividindo os dois lados por 500, v² = 202,65; tirando a raiz quadrada, v ≈ 14,24 m/s). Passareli, que faz essa mesma conta no seu livro e que, com muita honestidade, confessa ter acreditado no mito durante anos, oferece a referência humana: Michael Phelps, o maior medalhista olímpico da história da natação, atinge velocidade de pico da ordem de 3,9 metros por segundo — cerca de 14 quilômetros por hora — e nos duzentos metros livres nada a uma média de aproximadamente 2 metros por segundo, uns 7,2 quilômetros por hora. Ou seja, mesmo no seu pico absoluto, Phelps fica bem abaixo dos 14,24 metros por segundo necessários só para acrescentar uma atmosfera de pressão. E o ensaio de um relógio de trinta metros exige três bar, não um: para chegar lá, a conta pede 24,5 metros por segundo, quase noventa quilômetros por hora — uma velocidade que nenhum nadador humano chega perto de produzir.
Só que a conta teórica tem um ponto vulnerável, e é justamente por ele que os defensores do mito escapam. A fórmula pressupõe um fluxo de água constante e regular, mas o movimento da mão de um nadador é o oposto disso: a água gira, forma redemoinhos, se solta e volta a se juntar a cada braçada. É justo dizer, com razão, que uma conta feita para água calma pode estar subestimando o pico real de pressão nesse turbilhão todo. Diante disso, só resta uma saída: medir de verdade, na água, com nadadores de verdade. E foi isso que se fez.
Em fevereiro de 2022, Daiki Koga e colegas da Universidade de Tsukuba publicaram na Frontiers in Sports and Active Living um estudo que não tem absolutamente nada a ver com relógios e que, por isso mesmo, é a melhor evidência disponível sobre o assunto. Vinte e quatro nadadores homens, do nível regional ao finalista nacional, com melhor marca média de 24,24 segundos nos cinquenta metros livres e o mais rápido deles em 22,61 — quase noventa e dois por cento da velocidade do recorde mundial. Três tiros de vinte metros em nado crawl, em apneia e esforço máximo. Seis sensores de pressão em cada mão, colados na palma e no dorso, sobre as articulações metacarpofalângicas do segundo, terceiro e quinto dedos. Quinze câmeras de captura de movimento submersas. Aquisição a cem hertz. E, o detalhe que torna o estudo utilizável aqui, os autores calculam a profundidade real de cada sensor a cada instante e subtraem a pressão hidrostática correspondente, isolando exatamente aquilo que os fabricantes invocam e nunca quantificam: a pressão dinâmica pura.

Os números são estes. A pressão efetiva média na palma da mão, ao longo da fase submersa da braçada, foi de 1,17 quilopascal, com desvio padrão de meio quilopascal. No dorso da mão, em valor absoluto, 2,83 quilopascais. Os picos instantâneos, lidos nos gráficos individuais, chegam a três ou quatro quilopascais positivos na palma e a algo entre oito e doze quilopascais negativos no dorso, com a diferença entre as duas faces atingindo doze a catorze quilopascais no auge da braçada do nadador mais rápido.
Convertamos. Um bar são cem quilopascais e equivalem a dez metros de coluna d’água. A pressão dinâmica média na palma da mão de um nadador de nível nacional em esforço máximo é, portanto, de 0,012 bar — doze centímetros de água. No dorso, 0,028 bar, vinte e nove centímetros. O pico do diferencial, catorze quilopascais, são 0,14 bar, um metro e quarenta de coluna d’água. O teste de um relógio de trinta metros é de trezentos quilopascais. Sobra uma margem de vinte e uma vezes contra o pico absoluto, e de mais de cem vezes contra o valor médio. Mesmo contra o mínimo normativo de dois bar — o piso abaixo do qual nenhum relógio pode ser chamado de resistente à água —, a margem é de catorze vezes.
Falta ainda responder à objeção mais séria: a de que, no turbilhão real de uma braçada, a pressão pode disparar em picos muito mais altos do que essa conta simples prevê. E há um segundo trabalho que enfrenta exatamente essa pergunta. Em 2018, Mathias Samson e colegas do Instituto P’ da Universidade de Poitiers publicaram no Journal of Biomechanics uma simulação em computador que reproduz esse turbilhão real, em vez de assumir água parada — usando um modelo digital de mão e antebraço de um nadador de altíssimo nível, com noventa por cento da velocidade do recorde mundial. O braço parte do repouso e acelera até dois metros por segundo, e os pesquisadores repetem a simulação em dezenove ângulos diferentes de entrada na água, cobrindo praticamente todas as posições possíveis da mão numa braçada.
O resultado dá parcialmente razão aos que contestam a conta teórica, e é justamente por isso que ele vale tanto. Os autores demonstram que a conta simples realmente não basta, e que esse efeito de turbilhão inicial produz, nos primeiros dois décimos de segundo do movimento, picos de força bem mais altos do que se previa — a força de sustentação da mão chega a ser o dobro, no instante de pico, do que é um segundo depois, quando o movimento já se estabilizou; a força de arrasto chega a ser 80% maior. Ou seja: o acréscimo por turbulência existe mesmo, e agora ele foi medido — o fator é dois.
Dobrar catorze quilopascais dá vinte e oito quilopascais, 0,28 bar. Continuamos uma ordem de grandeza abaixo dos três bar do relógio mais modesto que se possa chamar de estanque. Essa é, a meu ver, a forma mais sólida de enunciar a tese: não se trata de negar o mecanismo, trata-se de medir o multiplicador e mostrar que ele incide sobre uma base tão pequena que o resultado não muda de ordem de grandeza.
O estudo de Poitiers entrega ainda uma segunda informação essencial: tanto Koga quanto Samson medem a mão, e o relógio não fica na mão. Fica no punho. E os autores mostram que os coeficientes de força da mão são cerca do dobro dos do antebraço, em todos os ângulos de ataque. A explicação não é sobre velocidade, é sobre formato. A mão tem uma ponta livre — as pontas dos dedos, soltas na água —, e essa ponta livre faz a água formar um pequeno redemoinho que gruda na superfície da mão e sustenta a pressão ali por mais tempo. O antebraço não tem ponta livre: está preso ao cotovelo, como um cano fixo, então o redemoinho que se forma nele não gruda — solta-se e vai embora rápido demais para sustentar força. Os próprios autores registram isso: no punho e no antebraço, os redemoinhos se desprendem, em vez de ficarem colados como na mão. Ou seja, o punho não gera menos pressão só por estar mais perto do ombro e se mover mais devagar — ele gera menos pressão porque, pela sua forma, a água não consegue se agarrar ali.
Há ainda um terceiro achado nos dois trabalhos que raramente se menciona e que é, para o nosso caso, quase irônico. A pressão no dorso da mão é negativa. É sucção, pressão abaixo da ambiente. A conclusão do estudo japonês é literalmente essa: a força propulsiva do nadador vem principalmente da queda de pressão no dorso, e não de “empurrar” água com a palma. Como o relógio é usado no dorso do punho, isso significa que, durante a fase propulsiva da braçada, a face onde o relógio está fica em depressão em relação ao ambiente — e não em sobrepressão.
Tudo o que descrevi até aqui é a natação de superfície, que é o cenário mais violento que um braço humano consegue produzir. Mas o argumento que mais me interessa, e que é o que fecha a questão, é o do mergulhador com cilindro. Um mergulhador não bate braço. Um mergulhador se desloca com as pernas, mantém os braços recolhidos, e move-se a uma velocidade da ordem de 1 metro por segundo — o que dá, pela fórmula, meio quilopascal (½ × 1.000 × 1² = 500 Pa), ou seja, cerca de cinco centímetros de coluna d’água. Ainda que ele agitasse os braços à velocidade máxima de um nadador de elite, e ainda que aplicássemos o fator dois do escoamento não-estacionário, chegaríamos a algo em torno de três décimos de bar. Um relógio testado a cinquenta metros tem cinco bar de capacidade. A soma da pressão hidrostática a cinquenta metros com todo o acréscimo dinâmico que um ser humano é capaz de gerar dá 5,3 bar contra 5 bar de ensaio — e é por isso, exatamente por isso, que a norma dos relógios de mergulho exige o teste a cento e vinte e cinco por cento da pressão declarada. A margem de vinte e cinco por cento não está lá por acaso: ela cobre o acréscimo dinâmico, a variação de densidade entre água doce e salgada, que é de dois a cinco por cento, tudo junto, com folga.
De modo que a conclusão se impõe: um relógio projetado para cinquenta metros, testado para cinquenta metros ainda que estaticamente na fábrica, tem necessariamente de suportar qualquer atividade que um mergulhador faça a cinquenta metros. Cinquenta metros, convém lembrar, é a altura de um edifício de dezesseis, dezessete andares. Trinta metros são dez andares. Não é pouca coisa; é muito mais do que qualquer pessoa que não seja mergulhador profissional jamais alcançará.
E não é por outro motivo que boa parte da indústria suíça diz exatamente isso, sem rodeios. O exemplo mais claro é a Omega, cuja formulação no site e nos manuais merece ser lida na íntegra, em tradução literal:
Todos os relógios OMEGA atuais são resistentes à água até a profundidade definida pelas especificações do modelo, desde que os componentes que asseguram a resistência à água estejam intactos. Isso significa que um relógio OMEGA resistente à água a 30 metros pode ser usado para nadar em profundidades de até 30 metros.
E logo em seguida, no mesmo texto:
Gostaríamos de enfatizar que a resistência à água de um relógio é assegurada por juntas de vedação posicionadas entre a coroa, os acionadores, o cristal e a caixa. Essas juntas se deterioram com o tempo sob a influência de fatores externos como variações de temperatura, poluição ou produtos químicos, e devem ser substituídas regularmente para garantir a resistência à água do relógio. Além disso, sabe-se que impactos severos afetam a resistência à água e devem ser evitados.
Leia de novo o primeiro trecho. Trinta metros — os mesmos “míseros” trinta metros que segundo os “sábios” não sobreviveriam a uma torneira — servem para nadar a trinta metros de profundidade. É a maior manufatura de relógios de mergulho do mundo dizendo, por escrito, o oposto do que dizem os manuais japoneses e os vídeos do YouTube.
Repare também na estrutura da frase, porque é ela que organiza todo este texto: desde que os componentes que asseguram a resistência à água estejam intactos. A Omega separa duas variáveis que quase todo mundo confunde. Uma é a classificação de pressão. A outra é o estado de integridade da peça. São eixos independentes, e o segundo manda no primeiro.
Vale ainda notar que a Omega trata o impacto severo como algo que afeta a resistência à água — isto é, dano à vedação — e não como pressão que vence a classificação. A distinção é exata. Quando alguém salta de um trampolim, o que acontece com o relógio não é sobrepressão hidrostática, é solicitação mecânica de curtíssima duração, medida em milissegundos, sobre área pequena. É a única hipótese em que a preocupação tem alguma base física, e mesmo assim a variável ameaçada é a integridade estrutural — assentamento do fundo, deformação, deslocamento momentâneo de uma junta —, não a capacidade de pressão. A prova de que são coisas distintas está na própria arquitetura normativa: resistência a choque e resistência à água são normas separadas, testando propriedades separadas. Resistência a impacto não escala com metros. Um relógio de trezentos metros não é mais resistente a pancada por causa dos trezentos metros; é, quando é, por causa da espessura do cristal e da geometria da caixa.

O que nos leva às normas, e à explicação do motivo pelo qual existe tanta confusão.
Um relógio é considerado resistente à água segundo a ISO 22810, editada em 2010, que tem equivalência na norma suíça NIHS 92-20 e substituiu a antiga ISO 2281. A norma inteira tem sete páginas. Ela prescreve quatro testes de imersão, todos validados por ensaio de condensação antes e depois: sobrepressão mínima de dois bar por dez minutos, com a pressão subindo em um minuto e descendo em um minuto; imersão a dez centímetros de profundidade por no mínimo uma hora; imersão a dez centímetros por cinco minutos com uma força de cinco newtons aplicada perpendicularmente à coroa e aos acionadores; e choque térmico, com cinco minutos a 40 °C, cinco a 20 °C e mais cinco a 40 °C, com a transferência entre imersões não excedendo um minuto. Há ainda um ensaio de estanqueidade ao ar, a dois bar, no qual não se admite fluxo superior a cinquenta microgramas por minuto.
Não há na ISO 22810 nenhuma tabela de usos permitidos. Ela não existe. Aquela tabela que aparece em manuais e em sites de revenda, com bonequinhos riscados dizendo que cinquenta metros não serve para nada, é rotineiramente atribuída à ISO, e a ISO não tem nada com isso. O que a norma faz — e aqui está a brecha — é atribuir ao fabricante, expressamente, a responsabilidade de declarar se determinada atividade está ou não no campo de uso de um determinado relógio, além de definir as condições de garantia e as precauções. Como registra Passareli, a interpretação moderna decorre daí: não havendo instrução particular do fabricante no manual, o relógio deve resistir irrestritamente a qualquer atividade até a profundidade declarada. É a leitura que a indústria suíça segue há anos.
Há um episódio na história dessa norma que praticamente ninguém conta e que, no meu entender, encerra o debate. As versões anteriores recomendavam a notação em bar, e não em metros, advertindo que as pressões de teste não deveriam ser tomadas como profundidades correspondentes de submersão. A revisão da ISO 2281 arrastou-se por anos travada exatamente nesse ponto. O impasse foi resolvido em 2009, no congresso do comitê técnico ISO/TC 114 em Shenzhen: confirmada a boa correlação entre as solicitações dinâmicas que o relógio sofre em atividades náuticas e os ensaios descritos na norma, a ISO 22810 voltou a permitir o emprego da unidade bar ou dos metros correspondentes.
Leia isso com atenção, porque é decisivo. O comitê técnico internacional da horologia examinou formalmente a objeção da pressão dinâmica, concluiu que ela não invalida a correspondência entre ensaio estático e uso real, e por causa disso reautorizou a marcação em metros. O argumento que os fabricantes usam hoje foi apreciado e rejeitado pelo próprio órgão que escreve a norma que eles invocam. E a própria ISO, no comunicado de lançamento da norma, foi explícita: se um relógio é declarado resistente à água a trinta metros, isso significa que, para todas as atividades aquáticas até trinta metros de profundidade, a caixa não deve vazar.
Coisa distinta é a ISO 6425, que certifica relógios de mergulho e tem correspondentes na NIHS 92-11 e na DIN 8306. Ela é muito mais rigorosa e exige bem mais do que resistir a uma profundidade: resistência mínima equivalente a cem metros, dispositivo que permita medir o tempo decorrido de mergulho — daí um relógio de duzentos metros sem aro giratório jamais poder ser chamado de relógio de mergulho —, legibilidade a vinte e cinco centímetros no escuro, indicação de fim de vida útil da bateria nos relógios a quartzo, resistência magnética, ciclos térmicos de vinte graus negativos a sessenta positivos, resistência a névoa salina por quarenta e oito horas, resistência a choque, teste a cento e vinte e cinco por cento da pressão declarada seguido de pressão negativa de 0,3 bar mantida por meia hora, e tração de duzentos newtons na fixação da pulseira. E, ao contrário da ISO 22810, o teste de resistência à água com vinte e cinco por cento de sobrepressão é feito em cem por cento dos exemplares, sem exceção. Os que passam recebem o direito de trazer a inscrição Diver’s no mostrador ou na caixa.
Agora, a origem da bagunça.
Os relógios japoneses seguem critérios um pouco diferentes, regidos pela norma industrial japonesa JIS B 7021, que é baseada na ISO 2281 e depois na 22810 e compartilha as mesmas metodologias de ensaio, mas com uma diferença estrutural crucial: ela é, por construção, um documento de classificação. A ISO não classifica; a JIS classifica. E as categorias são duas. Relógio resistente à água Classe 1: suporta pressão de dois bar, aguenta suor do dia a dia, gotas ao lavar o rosto, chuva, mas não pode ser usado em condições onde a pressão da água muda drasticamente. Relógio resistente à água Classe 2: suporta quatro bar ou mais, e pode ser usado debaixo d’água, como para nadar. A norma de mergulho japonesa, a JIS B 7023, baseada na ISO 6425, divide-se do mesmo modo em duas classes, a primeira para cem, cento e cinquenta ou duzentos metros, apta a mergulho livre e com cilindro mas não a saturação, e a segunda de duzentos metros para cima, em intervalos de cem, apta a atmosfera de gás misto.
É daí que vêm as tabelas dos manuais japoneses. E é aqui que a coisa fica interessante, porque a tabela da Seiko não é a JIS.
Olhe o que a Seiko publica no seu site. Sete linhas. Sem resistência. Três bar: só respingos acidentais e chuva. Cinco bar: acrescenta natação, iatismo e chuveiro. Dez bar: acrescenta banho e mergulho raso. Quinze bar: idêntico ao dez. Vinte bar: idêntico ao dez. Diver’s Watch 200 meters: acrescenta mergulho com cilindro. Professional Diver’s Watch 1.000 meters: acrescenta mergulho de saturação.

Compare com a norma. A JIS libera a natação a partir de quatro bar; a Seiko exige cinco. A JIS tem duas classes; a Seiko tem sete linhas. Ou seja, a Seiko é mais restritiva que a própria norma japonesa que a inspira, e o detalhamento adicional é invenção dela.
E a tabela se autodestrói de três maneiras distintas, sem que seja preciso opor a ela qualquer dado externo.
A primeira: dez, quinze e vinte bar recebem permissões absolutamente idênticas. Dobrar a capacidade de pressão não libera coisa alguma. Numa tabela genuinamente indexada por pressão, mais pressão possibilita mais usos; nesta, não. Ela não é um documento de física.
A segunda: a Seiko exige dez bar para banheira. Uma banheira tem trinta centímetros de água, 0,03 bar. Exigir dez bar para uma exposição de três centésimos de bar é uma margem de trezentas vezes. Nenhuma teoria de pressão dinâmica chega perto de justificar isso — e nem precisa, porque o risco real do banho é térmico e químico, água quente na caixa e sabão atacando o elastômero. A tabela está usando a coluna da pressão para expressar um perigo que não é de pressão.
A terceira, e a mais reveladora: “20 BAR” e “Diver’s Watch 200 meters” são a mesma pressão e a mesma profundidade nominal — duzentos metros, o mesmo número gravado no fundo. A Seiko permite mergulho com cilindro para um e nega para o outro. Se a pressão fosse a variável efetiva, isso seria impossível. O que separa os dois não é um único pascal a mais de resistência: é a certificação sob a ISO 6425, com todos aqueles requisitos de legibilidade, choque térmico, pressão negativa e magnetismo. Ou seja, a própria Seiko admite, na estrutura da sua tabela, que a indicação em metros não é o que determina a adequação de uso. E se não é, o argumento da pressão dinâmica cai junto, porque ele pressupõe exatamente o contrário.
O melhor, no entanto, está no preâmbulo da própria página. A Seiko escreve que a resistência à água não é permanentemente garantida, sendo afetada pelo envelhecimento das juntas ou pela deformação de peças por choque acidental. É o diagnóstico correto, enunciado com todas as letras: as duas variáveis reais são vedação e integridade estrutural. Nenhuma das duas é pressão. A empresa acerta no parágrafo e se contradiz na tabela logo abaixo.
Não me arrisco a afirmar quem escreveu essas tabelas, mas confesso a suspeita — e Passareli registra a mesma, com a devida cautela, ao observar que marcas que mantêm limites conservadores sem qualquer menção a normas técnicas o fazem, especula-se, por isenção de responsabilidade legal e não por limitação técnica de fato. As duas estratégias existem no mercado e são igualmente protetivas do ponto de vista jurídico. A Omega promete o desempenho integral e condiciona a promessa à manutenção, transferindo o ônus para a revisão do proprietário. A Seiko não promete nada e assim nunca precisa provar nada. Só que apenas uma das duas o faz sem distorcer a física. A tabela da Seiko não descreve o que o relógio suporta; descreve o que a empresa aceita como reclamação de garantia.
Chego, enfim, à conclusão, que é aquela mesma fotografia com que comecei.
Um relógio não falha na água porque era resistente a trinta metros e alguém o usou para nadar. Ele falha porque tem um defeito: junta ressecada, junta mal instalada, junta ausente, caixa deformada por uma pancada, fundo mal apertado depois de uma revisão, coroa não rosqueada. Um Rolex Deepsea, projetado para três mil e novecentos metros, com um sistema Ring Lock que suporta o equivalente a três toneladas sobre suas superfícies, falha a um centímetro de água se a vedação estiver comprometida. E um Patek Calatrava de tampa de pressão, testado a trinta metros, com as juntas em ordem e a estanqueidade verificada recentemente, vai para a piscina sem qualquer problema.
Há aí, aliás, um perigo que ninguém menciona, e que é o inverso exato do mito. É perigoso alguém achar que, porque seu relógio tem centenas de metros gravados no fundo e coroa rosqueada, vai necessariamente resistir àquela pressão sem que se tenha verificado nada. Não é por outro motivo que a Omega, na mesma página em que garante os trinta metros, recomenda verificar a estanqueidade uma vez por ano em serviço autorizado. Entre mergulhar para caçar polvo com um Calatrava revisado há três meses e testado para resistência à água, e fazê-lo com um Sea-Dweller projetado para milhares de metros mas cuja última revisão e verificação de juntas ocorreu há décadas, eu escolho o Calatrava sem hesitar um segundo.
Quando aquele Skydiver embaçou por dentro, ninguém precisou de hidrodinâmica para explicar o que houve. Faltava a junta. E é essa a lição que atravessa toda a história que contei aqui — de uma caixa Borgel de 1891 sem nenhuma vedação que sobreviveu a uma máquina de lavar, do relógio de pulso Tavannes que os comandantes de submarino usaram num convés permanentemente molhado, dos catorze dias de imersão a que a Harrods submetia cada Fortis Aquatic antes de vendê-lo. A água não entra por causa do número gravado no fundo da caixa. Ela entra pelo caminho que alguém deixou aberto.
Fontes:
- KOGA, Daiki; TSUNOKAWA, Takaaki; SENGOKU, Yasuo; HOMOTO, Kenta; NAKAZONO, Yusaku; TAKAGI, Hideki. Relationship Between Hand Kinematics, Hand Hydrodynamic Pressure Distribution and Hand Propulsive Force in Sprint Front Crawl Swimming. Frontiers in Sports and Active Living, v. 4, art. 786459, 2022.
- SAMSON, Mathias; MONNET, Tony; BERNARD, Anthony; LACOUTURE, Patrick; DAVID, Laurent. Analysis of a swimmer’s hand and forearm in impulsive start from rest using computational fluid dynamics in unsteady flow conditions. Journal of Biomechanics, v. 67, p. 157-165, 2018.
- PASSARELI, Adriano. Horologia para Apressados, capítulo 7, “Resistência à Água”.
- BOETTCHER, David. The Evolution of the Waterproof Watch, disponível em https://www.vintagewatchstraps.com/waterproof.php
- ISO 22810:2010 — Horology: Water-resistant watches.
- ISO 6425:2018 — Horology: Divers’ watches.
- JIS B 7021 — Water resistant watches for general use: Classification and water resistibility.
- OMEGA, What is the water resistance of an OMEGA watch?, seção de atendimento ao cliente.
- SEIKO WATCH CORPORATION, Water Resistance, FAQ, disponível em https://www.seikowatches.com/us-en/customerservice/faq/general-information-8
- Publication of standard ISO 22810. Revue FH, 16 set. 2010, reproduzido em WorldTempus.
- ISO standard for water-resistant watches makes “huge splash”. ISO, nov. 2010.
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